quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012


Interpretação de poema - 9º ano
Amar
Que pode uma criatura senão,
entre criaturas, amar?
amar e esquecer,
amar e malamar,
amar, desamar, amar?
sempre, e até de olhos vidrados, amar?

Que pode, pergunto, o ser amoroso,
sozinho, em rotação universal, senão
rodar também, e amar?
amar o que o mar traz à praia,
e o que ele sepulta, e o que, na brisa marinha,
é sal, ou precisão de amor, ou simples ânsia?

Amar solenemente as palmas do deserto,
o que é entrega ou adoração expectante,
e amar o inóspito, o áspero,
um vaso sem flor, um chão de ferro,
e o peito inerte, e a rua vista em sonho, e uma ave de rapina.

Este o nosso destino: amor sem conta,
distribuído pelas coisas pérfidas ou nulas,
doação ilimitada a uma completa ingratidão,
e na concha vazia do amor a procura medrosa,
paciente, de mais e mais amor.

Amar a nossa falta mesma de amor, e na secura nossa
amar a água implícita, e o beijo tácito, e a sede infinita.
                                                      Carlos Drummond de Andrade

1)    Analise, inicialmente, a primeira estrofe.

a)    Segundo o “eu poético”, o ato de amar é uma vocação. Que versos sugerem essa ideia?

b)   É possível perceber que, segundo o “eu poético”, o ato de amar acontece quando o indivíduo se encontra em uma determinada circunstância. Que circunstância é essa?

c)    Amar, de acordo com o poema, é uma atitude finita? Justifique sua resposta.

2)   Na segunda estrofe, o “eu poético” diz que o ser amoroso, em rotação universal, também pode amar.

a)    Qual é o sentido da expressão “ser amoroso"?

b)   Na estrofe inicial, foi mencionado que o ato de amar acontece em um determinado contexto, ou seja, entre criaturas. Na segunda estrofe, há uma palavra que se opõe a essa ideia. Que palavra é essa?

c)    Mesmo mencionando essa palavra, pode-se dizer que ainda prevalece a ideia da existência do amor somente entre as criaturas? Justifique a sua resposta.

3)   Ainda na segunda estrofe, ao empregar a palavra mar, o “eu poético” estabeleceu uma relação de semelhança gráfica e sonora com a palavra amar.

a)    A palavra mar também reforça a ideia do movimento cíclico do amor. De que forma isso está sugerido nessa estrofe?

b)   Releia o último verso da estrofe: “é sal, ou precisão de amor, ou simples ânsia?” De maneira figurada, o “eu poético” revela três diferentes forma de amar. O que você consegue apreender com base nos elementos citados?

4)   Observe que na terceira estrofe o “eu poético”, usando a linguagem figurada, fala em amar aquilo que é áspero ou inóspito, sem vida ou vazio.

a)    A as idéias “um vaso sem flor”, “um chão vazio”, “o inóspito”, “o áspero” e “as palmas do deserto” apresentadas no poema podem ser consideradas elementos figurados que representam características ou atitudes humanas? Em caso afirmativo, que características elas apresentam?

b)   Note que o “eu poético” ainda fala em amar “o que é entrega ou adoração expectante” [que espera], “a a rua vista em sonho” e “uma ave de rapina”. Esses elementos parecem não ter relação de sentido com os mencionados na questão anterior. Assim, responda: o que é possível afirmar sobre esses elementos, refletindo sobre o ato de amar?

5)   Na quarta estrofe, o “eu poético” diz que o destino do ser humano é amar sem conta, ou seja, de maneira ilimitada, como uma forma de doação.

a)    O que significa no poema “doação ilimitada a uma completa ingratidão”? O “eu poético” está se referindo ao amor não correspondido ou estaria falando sobre o amor desinteressado, de pura entrega?

b)   Em que versos dessa estrofe o “eu poético” sugere novamente a ideia do movimento cíclico do amor?

c)    Ao falar em “concha vazia do amor”, o “eu poético” remete novamente para a figura do mar, mencionada na segunda estrofe. No contexto do poema, o que essa imagem pode estar representando?

6)   Releia a última estrofe e observe que novamente ele remete para a ideia de que amar é um sentimento inesgotável. Que expressão está sugerindo essa forma de pensar do “eu poético”?

Gabarito
1)    a- “Que pode uma criatura senão, / entre criaturas, amar?”

b- Quando ele está entre criaturas.

c- Não, pois de acordo com o poema, amar é cíclico, como pode ser observado nesses versos: “amar e esquecer, / amar e malamar, / amar, desamar, amar?

2)   a- É o ser que tem amor ou está amando.

b- A palavra “sozinho”.

c- Sim, pois, ao falar em “rotação universal”, ele sugere a harmonia de movimentos, da convivência entre outros seres, ou seja, o ser amoroso acaba sendo impulsionado a afinar-se com o mundo  e também a amar.

3)   a- Para reforçar a ideia do movimento cíclico do amor, o “eu poético” disse: “amar o que o mar traz à praia, / o que ele sepulta[...]”.

b- “Sal” é o tempero, a graça que existe no amar; “precisão” pode estar se referindo à carência afetiva, ao sentimento de solidão; “ânsia” à vontade, ao querer amar.

4)   a- Sim, pois tais elementos poderiam estar representando a ausência de sentimentos, o amor não aceito ou não correspondido, o amor que não floresce, etc.

b- É possível afirmar que, segundo o “eu poético”, o ato de amar pode acontecer em todos os momentos vivenciados pelo ser amoroso.

5)   a- O “eu poético” refere-se ao amor desinteressado, de pura entrega.

b- Em “e na concha vazia do amor a procura medrosa,/paciente, de mais e mais amor.”

c- A concha pode ser o elemento que representa a capacidade humana de amar, que nunca se completa, ou ainda pode ser um elemento figurativo que indica o lugar em que o amor se instala, acomoda-se, encontra seu lugar.

6)    A expressão sede ”infinita”.

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